top of page

Canto gregoriano sobre o verde dos buritizais. Poema em homenagem ao aniversário de Barreiras


Havia nos seus olhos um jeito de canto gregoriano e a beleza dos salmos de Davi tocados em harpa. Mas seus olhos iam além tal qual a estrada do Cantinho do Senhor dos Aflitos, a estrada do Rio Branco ou o Vau da Boa Esperança. Os seus cabelos longos que nem a Romaria de Bom Jesus da Lapa, que nem as rezas cumpridas das rezadeiras da minha infância. Seus cabelos longos parecidos com os povoados ribeirinhos de Barreiras, com as ruas cumpridas de Barreiras, Rua José Bonifácio, Rua Barão de Cotegipe, Avenida Benedita Silveira e tantas outras que atravessam a cidade chegando a Vila Brasil, ao bairro Santa Luzia ou ao bairro Morada da Lua. Do jeito de uma música que atravessa nossa memória interminavelmente. Da forma do sino de São João Batista badalando na boca da noite, chamando para a novena.

Ah Barreiras! como te amo minha cidade em cujos rios lavo meus pecados, minha pequenez, meu infortúnio. No ombro do barranco do Rio Grande chorei minhas primeiras desilusões amorosas, meus primeiros dramas, minhas primeiras trevas mas também foi nas margens do Rio Grande que descobrir a luz da poesia.

Olho estas tardes feitas de queimadas e fumaça sobrevoando o tempo. Mas acho que sou feito de ausência, de silêncio sem tradução, sou sem nome e minha vizinha mais próxima é a solidão que desde tempos imemoriais me acena com seu olhar de sombra e sua pálpebra de teclado de computador.

Escuto a música fúnebre das queimadas, ouço a música das facas compondo a sinfonia da noite profunda lá onde luas de delírio se projetam sob a voz de Zeca Bahia. O que escrevo agora é uma espécie de silencio ao contrário, escrever é isso: arrancar a sua própria pele e entregá-la a alguém que sente mais que você, a dor da solidão. A ausência de quem escreve não tem parâmetro, a solidão de quem escreve não tem fronteira e é muito maior que a solidão azul do navegador solitário Almir Klink sem ver terra, sem ver porto, sem ver aves, só água e água e água e léguas de água. Eu que tenho no sangue e nos olhos a alegria, melancolia, o sofrimento e a dor dos negros meus antepassados, minha ancestralidade que vieram da África para o Brasil. Em cada palavra que escrevo há milhares de vozes da África, há pranto, há dor mas também há o orgulho de ter sido junto com os índios a raiz de uma nação. Não sei se é maior que isso a solidão de quem escreve navegando sobre coisa alguma e sentindo o cérebro misturando as ideias por dentro com a mesma tecnologia de um liquidificador, de uma máquina de lavar ou de uma betoneira mistura cimento e brita para, do sonho do arquiteto, erguer o prédio que reluzirá na avenida de uma bela cidade da América do Sul ou do Leste Europeu. É assim, nesta solidão de clausura que a arte fluiu dos dedos do Aleijadinho, de Congonhas dos Campos, da cidade da Barra com seu rosto de Rio São Francisco e Rio Grande, “das mãos criadeiras do mestre Guarany ou do texto de altíssima voltagem de Osório Alves de Castro que me fez ancorar em seu porto calendário da bela cidade de Santa Maria da Vitória. Assim é a arte das vozes de Bosco e Saulo Fernandes, vozes de Rio de Ondas, de Cachoeira do Acaba Vida, de Cachoeira do Redondo, vozes do cais de Barreiras, do Mercado Velho, “Zé, ainda me lembro de você Buriti” vozes de Barreiras em minha garganta que nem um sol ou uma saudade até onde eu não mais me souber.

Assim quero escrever até os meus últimos dias, morrendo de saudades de Carlos Luis, meu sincero amigo de olhos meigos e profundos, das canções que fizemos varando noites longas, tomando chá de camomila e café, até que ele morreu em São Paulo e deixou esta solidão que me faz andar assim, meio de lado, precisando utilizar uma muleta de silencio para poder continuar. Assim revejo os cajus de Randesmar, as mandalas de Ataliba, as composições de Xuma e Ronaldo Sena, as noites azuis, as madrugadas que costuramos com nossas lágrimas e nosso desespero e nossa esperança no esvidraçamento da nossa memória. Mesmo que os urubus façam festa sobre nossos esqueletos, haveremos de sobreviver pela arte que tatuamos no corpo do tempo, na pele de uma cidade, na memória de um povo.

A minha arte tem isso: algo profundamente ligado a imagem de São Sebastião de Barreirinhas, as procissões, a voz de dona Veré, de dona Lalá, de dona Maria Nogueira, de dona Ana Viúva, rezadeiras da minha infância e que, mesmo sem saber, estavam me ensinando a poesia que hoje corre no meu sangue. A minha arte é a escrita. Dela vivo e só vivo por tê-la comigo e sem ela eu não teria salvação. Meu pecado e meu crime, e através dela me ajoelharei e pedirei perdão aos deuses por todos aqueles a quem causei sofrimento e perdoarei a todos que me fizeram sofrer.

É a arte a minha natureza. Aquilo que Deus me deu como dom e é a isso que me entrego nestas noites de solidão e ausência. O dom de escrever possui a mesma forma de quem carrega o andor na procissão de São Sebastião da Barreirinhas ou de quem arranca raiz de mandioca no Arraial da Penha.

Saibam todos que minha escrita esta repleta das vozes da África e que embora cheia de mandacarus, tem aves, tem flores, tem rios e buritizais. E sai do recanto mais profundo do Oeste Baiano e abre as asas e voa sobre minha amada cidade de Barreiras deixando perplexo os meus olhos de campos gerais. Encerro assim esse texto com o teclado gemendo solidão e ausência. Canto gregoriano sobre o verde dos buritizais. Só para você Barreiras minha e de quem mais chegar.


Roberto de Sena

Escritor negro de Barreiras




21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page