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Escritora Rosa de Lima faz análise do livro "Sava" da acadêmica Nadir Xavier


A cultura cigana - uma das minorias mais enxovalhadas no Brasil - é objeto de um romance da baiana de Ibitiara residente atualmnente em Barreiras, Nadir Xavier de Andrade, que aborda esse tema de maneira singela mostrando os amores, as tradições, as peregrinações, a culinária, a fé em santa Sara Kali desta cultura européia centralizada na Romênia ainda na época da ditadura de Nicolae Ceausescu.

Para ambientar sua história, Nadir reforçou seus conhecimentos com ampla bibliografia básica sobre o tema e apresenta um livro bem interessante de se ler e entender essa cultura milenar da terra dos vampiros, sobretudo por situar a sua narrativa num momento de transformação da Romênia e os massacres cometidos pela ditadura Ceausescu.

A suposta terra do Drácula, posta aqui, não no sentido pejorativo da palavra, mas inserida dentro do contexto de uma cultura complexa e que, por ser itinerante se espalhou por várias partes do planeta a partir da Índia, estima-se no século XII, provavelmente, sendo a única no mundo com essa característica, o que vemos também em vários estados do Brasil e na Bahia, em particular.

Nadir deu ao seu romance o titulo de Sava (Editora Ipanema, 330 páginas, 2020, a venda pela internet) o nome de um jovem de uma familia cigana e ao mesmo tempo de um rio que serpenteava os carroções onde seus pais moravam e ele nasceu. É remissivo: começa com Sava já adulto e com familia constituida e retoma um tempo inicial da vida dos seus país e de sua etnia há 60 anos.

A cultura cigana é exposta de maneira bem transparente com citações de alguns rituais praticados pelas familias, nomes de alguns produtos da culinária e da vinocultura, as diferenças étnicas, o comportamento das familias perante cada grupo distinto e como se desenrola a vida de um casal (Wladimir e Amapola) de tribos driferentes, porém, ligados pelo amor; a desilusão e a compreensão de uma pretendente de Wladimir (Nazira) que não consegue conquistá-lo, se conforma e vai se casar com um dos seus amigos (Tarim); e a sequência do amor e casamento de Sava com Carmencita.

Nadir vai descrevendo nessa saga cigana exatamente como se comportam essas familias onde a virgindade tem um valor inestimável, a união entre eles, a vida itinerante, o amor pela Romênia, as mudanças politicas que aconteceram com o julgamento e o fim de Ceausescu, a perseguição aos ciganos, todo um caldo de cultura bem colocado e que, as pessoas conhecem de algumas observações orais e não de um texto bem formulado como apresentado no livro.

A importância deste trabalho - independente da linha romântica - está exatamente na possibilidade de oferecer aos leitores essas informações, desde os conceitos iniciais dos dois segmentos ciganos mais relevantes no Brasil, os Rom (kalderash, khorakhane e Ragare - originários da Iugoslávia) e os Calom (os ibéricos da Espanha e Portugal, do Norte da ÁFrica e Sul da França) e a designação que deram a nós, brasileiros, de cajão, cajom. Quem nunca se deparou com um cigano oferecendo um tacho de cobre com a expressão: "Cajom, adquire esse tacho".

No peregrinar pelas páginas do livro o leitor vai tomando conhecimento mais detalhado da cultura cigana - embora o livro no seu conteúdo geral seja um romance, histórias de amores ciganos e não sobre a cultura cigana em si - de lugares como Tárgovies, Tmissoara, Jasenovac, Zagreb, Belgrado e outras; do goulash (cozido de arroz), do papuchá (pirão de milho), kolaco (pão cigano) do ensopado de veado e vino, do banho cigano do amor para trazer sorte, do dote ou pagamento a uma familia na conquista e posse de uma donzela, uma série de costumes, tradições milenares e simpatias.

A devoção arraigada por santa Sara Kali, algumas coisas que para os brasileiros (e, em parte, os ocidentais) são consideradas superadas (ou atrasadas, conservadores) para essa cultura representam valores inestimáveis, imutáveis e que fazem parte dos seus modos de vida.

Nesse aspecto, o texto de Nadir fica até mais gostoso de ser lido e entendido, eventualmente os leitores dizendo para sí mesmos (ah! isso ainda existe? Que coisa mais absurda?) mas também entendendo que assim é a vida cigana, que sua moda no vestir (especialmente as mulheres) não se movimenta pelos salões de Paris ou da Fashion Week São Paulo; que usar dentes de ouro entre os homens é ainda normal e orgulhoso e para ser ostentado, e que a honra e o dever do pretendente a sua jovem passar por um pedido formar ao patriarca de um grupo ou pai da moça.

Preceitua Nassim Nicholas Taleb em "Anti-Frágil - coisas que se beneficiam com o caos" que, "na máfia siciliana (Cosa Nostra) a designação 'homem de honra' implica que a pessoa capturada pela Polícia permanecerá em silêncio e não deletará seus amigos, independente do que lhe será oferecido". Ou seja, a tribo vem antes do individuo. Assim, parece-nos os ciganos até hoje.

A cultura cigana, às vezes julgadas excessivamente tradicional, está acima do indivíduo e preserva suas tradições desde sua origem. Então, ao julgar ou analisar as familias Wladimir/Amapola; Sava/Carmencita vê-se uma continuidade das tradições de raiz, sem alterações, e estamos falando de um momento final do século XX.

A linguagem usada pela autora é também bem compreensível - como se estivesse falando, narrando para uma roda de amigos e amigas - e isso é outro atrativo porque permite que pessoas de diferentes níveis de conhecimento leiam a obra e compreendam. As citações da Romenia, do seu regime de governo, Ceausescu e outros são sempre intercaladas com explicações e o romance se desenrola para um final agradável, sem dramas muito agudos, o que também é bom. Claro que há leitores que gostam mais de histórias sedutoras à larga, de dramas no estilo traições, assassinato e outros, mas não é o caso de Sava.


Sava é um colírio aos olhos ainda mais nesse tempo pandêmico.


Originalmente publicado aqui

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